Os Desafios da Leitura Digital

Há alguns anos, o escritor Nicholas Carr relatou que passou a se sentir inquieto enquanto lia livros ou artigos mais longos. “A minha concentração se dispersa depois de duas ou três páginas. Eu perco o fio, começo a procurar algo pra fazer. Eu sinto como se estivesse sempre arrastando o meu cérebro de volta para o texto. A leitura profunda que antes vinha naturalmente agora tornou-se uma luta”.

Ele entende que os anos recentes de leitura online são os principais responsáveis por esse fenômeno, apesar de reconhecer que a leitura digital tem benefícios incomparáveis em relação a épocas anteriores. Em questão de minutos, por exemplo, ele é capaz de pesquisar um volume imenso de informações e encontrar conteúdos que antes só estariam disponíveis em bibliotecas e salas de leitura.

Carr não está sozinho. Há uma tendência na atualidade em desprender-se do foco. A leitura digital mudou o modo como absorvemos o que está escrito – não necessariamente lê-se de cima pra baixo e da esquerda para a direita; os olhos pulam de um trecho ao outro, há uma busca ativa por determinadas palavras-chave, negritos, sublinhados e afins. Não só isso, mas o entorno sempre cheio de links e fotos também desvia a atenção, de forma que o leitor chega a esquecer o que tinha começado a ler originalmente.

Do ponto de vista fisiológico, da própria evolução da espécie humana, esse ritmo de leitura inevitavelmente tem suas implicações. Enquanto alguns especialistas defendem que os novos hábitos digitais, por si só, não causam maiores danos ao sistema ocular, os profissionais da área são uníssonos em ressaltar o risco de cansaço extremo e dores de cabeça em razão do excesso de leitura em dispositivos eletrônicos.

Quando estamos em frente a computadores e celulares, “nós piscamos menos, e é o piscar que espalha o filme lacrimal e promove uma superfície ocular saudável”, nas palavras do oftalmologista Dr. Marcelo Caram. Há também, segundo ele, um excesso de exposição ao comprimento de onda de luz azul dos monitores que pode contribuir, ao longo do tempo, para degenerações na área da retina. Não bastasse, o constante estímulo visual a curta distância contribui para o surgimento da miopia.

Preço alto

São justamente esses alguns dos motivos que fazem a pedagoga e professora de educação infantil Dani Vecchietti, 28 anos, preferir lidar com agendas, revistas e livros de papel. As telas lhe cobram um preço alto, com “muita dor de cabeça e nos olhos”. Ela fala também do – romântico – apelo da mídia impressa, do gosto de passar as páginas. Quando lê revistas, pode escolher as matérias que lhe interessam e ir a elas sem ordem definida. Quando lê livros, as páginas que foram lidas acumulam-se de um lado, e a passagem física pelos capítulos torna a experiência mais produtiva. Há um senso de progresso.

Pedro (nome fictício), de outro lado, estudante de Ciência da Computação, 21 anos, não hesita em dizer que a leitura digital lhe atende infinitamente melhor do que a impressa. Ele lista a facilidade de acesso, a variedade de fontes de informação, a possiblidade de se ler comentários e opiniões de outras pessoas a respeito do mesmo conteúdo, o baixo preço e a capacidade de armazenamento em tablets e celulares.

A professora da área de linguística da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) Rejane Dania defende que não é a plataforma em uso que define como se dará a assimilação do conhecimento, mas a experiência prévia e características pessoais de quem a está utilizando. Há que se respeitar o modo como cada um se adapta aos meios de leitura disponíveis.

A relação de cada indivíduo com materiais literários e informativos, de um modo geral, gira em torno das suas vivências em casa e na escola, entre amigos, familiares e colegas. As mídias impressa e digital podem até mesmo se misturar e se complementar, e a possiblidade de aprendizagem, daí, ruma ao infinito.

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flaviacataldo

Writer, blogger, translator, once a lawyer. Convinced that having a conservative liberal personality makes complete sense.

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