A Reinvenção do Rádio

Do seu aparecimento, no início do século 20, até estes primeiros anos do século 21, o rádio pode ser considerado ainda jovem, mas com uma invejável experiência de vida. Décadas atrás, era a principal fonte de informação e entretenimento nas casas e ambientes de trabalho. Hoje, notavelmente, resiste e divide espaço com uma infinidade de outros meios de comunicação, tanto on quanto off-line.

Nossos avós certamente podem testemunhar sobre a fascinação de se ter a voz humana projetada em um aparelho doméstico. A relação entre o ouvinte e as rádios, a interação da fala e audição entre espaços geograficamente distantes, todas essas vertentes foram a base do que se tem hoje em termos de mídia e comunicação social. Tema para um bom bate-papo.

Carolina Braga, editora do site Culturadoria (www.culturadoria.com.br) e professora de Radiojornalismo da Uni-BH enxerga com clareza a convivência do rádio com as demais mídias. Em entrevista concedida a este blog, ela aborda a questão de forma fluida e instigante.

Pergunta – Qual o lugar do rádio hoje?

Resposta – Ainda acho que o rádio consegue ser o meio de comunicação mais veloz, capaz de associar informação e análise ainda mais rápido que o Twitter. Por isso, as emissoras informativas têm tudo para explorar essa característica. O ecossistema das mídias já mudou muito e as rádios informativas souberam tirar proveito disso. O mesmo não ocorreu com as emissoras musicais. Os lançamentos estão em outras plataformas e a audiência também.

P – Como atingir um público ouvinte que está cada vez mais plugado no próprio celular?

R – O rádio está no celular. Essa é a vantagem: as plataformas evoluíram e o tradicionalíssimo meio de comunicação foi se adaptando, entendendo que na comunicação em rede o que vale é a coexistência de várias mídias, de diversos modos de se comunicar. Estar plugado no próprio celular também pode significar acompanhar alguma emissora de rádio pelas ondas sonoras ou pelas redes sociais.

P – As emissoras de rádio têm conseguido se manter ativas e produtivas nessa era da internet?

R – Sim. O modelo de negócio dos meios de comunicação foi totalmente abalado “nessa era da internet”. Em todas as mídias. Isso significa que a manutenção está cada vez mais difícil. Mas não acho impossível, já que novos caminhos se apresentam cada vez mais desafiadores.

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Big techs: mais perguntas do que respostas no cenário digital

Muito se discute atualmente sobre a posição das chamadas Big Techs, as  grandes empresas de tecnologia, em um mundo cada vez mais pautado e envolto pelas mídias digitais. Companhias como Amazon e Google cresceram a níveis tão estratosféricos que torna-se quase impossível não pensar (e repensar) sobre os conceitos de monopólio, igualdade e concorrência.

A lista de discussão é extensa. Há o problema da regulamentação das atividades dessas empresas em cada país e entre países. Há a questão da crescente utilização de expedientes automatizados e redução da força de trabalho humana. Existe ainda o compartilhamento quase que fraternal dos dados pessoais de consumidores ao redor do globo, criando-se uma mailing list invasiva e de grande valor financeiro no mundo corporativo.

A resposta a todas essas questões e o rumo que tomam têm sobre nós, cidadãos comuns e usuários dos serviços oferecidos pelas grandes techs, um impacto muito maior do que objetivamente se pensa. Não se trata apenas de leis e impostos ou de exploração e publicidade.

A atuação das grandes companhias de tecnologia ressoa no próprio desenvolvimento da sociedade. Quanto mais presentes – com suas ditas práticas arrojadas e em sintonia com um público ativo e dinâmico – mais elas exercitam a sua influência sobre o modo como conduzimos a nossa vida de um modo geral.

Nas palavras do escritor americano Nicholas Carr, a propósito do trabalho do filósofo canadense Marshall McLuhan, “no final das contas, o conteúdo trazido pelas mídias é menos importante do que a própria mídia em si, em sua influência sobre como pensamos e agimos. Como uma janela para o mundo e para nós mesmos, uma mídia popular molda o que e como enxergamos – e se a usarmos o bastante, teremos nos transformado como indivíduos e como sociedade.”

Assim, o movimento dos governos no sentido de tributar empresas e regulamentar suas atividades em determinado local tem um resultado direto na sociedade envolvida. Veja-se, por exemplo, a questão do Uber nos Estados brasileiros e o quanto ela diz a respeito de como a nossa comunidade enxerga o conceito de locomoção, o direito de trânsito no meio urbano, a existência de pessoas autorizadas a profissionalmente transportar outras de um lugar ao outro, dentre outros.

Como ainda engatinhamos na era digital, as perguntas nesse momento certamente superam as respostas que se possa ter. Mas se colocarmos estas interrogações no contexto a que de fato pertencem, os diálogos acabam por tornar-se mais produtivos e eficientes.

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Lições de Liberdade

Se você algum dia for à China, a passeio ou a trabalho, avise aos amigos e à família: seu Facebook, Twitter e, com alguma chance, também seu e-mail estarão fora de órbita.

Trata-se da política de monitoramento do governo chinês sobre o acesso e uso da internet no país. Há em vigor uma extensa lista de sites oficialmente banidos, que inclui Google (e suas ramificações, como o Maps, Docs e Gmail) e o jornal norte-americano The Wall Street Journal.

O The New York Times, por exemplo, vem há pelo menos duas décadas tentando penetrar no mercado chinês. Atualmente, grande parte de seu conteúdo encontra-se bloqueada e está além do alcance de leitores em potencial.

Palavras-chave foram catalogadas de modo a facilitar a atuação do departamento de controle e censura. Vão de ‘protesto’ e ‘comunismo’ a ‘democracia’, ‘despotismo’ e ‘ditadura’. Jornais de oposição são pressionados a adaptar ou encerrar suas atividades, e ativistas dissidentes têm sido processados e presos.

O pano de fundo de projetos conhecidos como Escudo Dourado e Grande Firewall da China segue um dos provérbios favoritos do líder politico Deng Xiaoping: “Se você abre uma janela por várias horas, deve pressupor que em algum momento insetos irão entrar por ela”.

Assim, o governo chinês espera que, ao limitar a entrada de informações no país, o mal que poderia voltar-se contra si próprio também estaria eliminado.

É aí que entra a possiblidade de aprendermos com a experiência alheia. Nós, brasileiros, que cada vez mais fazemos uso da internet e das mídias sociais. Nós que dividimos nossas vidas e opiniões com centenas (milhares?) de amigos, colegas, tios e primos, mas também com outros tantos desconhecidos. Nós que somos parte desse fervor crescente, que temos essa vontade de alimentar discussões acirradas sobre política, direitos sociais e outros temas de difícil consenso.

O que se vê nos círculos sociais, e por vezes nos noticiários, é que a exposição das nossas diferenças de opinião tem nos dividido de modo irreconciliável.

Se, por um lado, temos amplo acesso à informação, por outro, falta-nos apreço e bom uso das diversas fontes de notícia e conhecimento que nos chegam. Desfrutamos de irrestrita liberdade de expressão, mas frequentemente a levamos a um extremo desrespeitoso. Nosso julgamento moral é implacável.

Nós, brasileiros, temos privilégios de cidadãos livres, mas os dissipamos, o que contamina a nossa capacidade de melhorar como povo. É simples e complicado assim.

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Como as Mensagens de Texto Mudaram a Forma Como Nos Relacionamos

Em junho último, a jornalista de multimídia Ankita Rao escreveu para o portal de ciência e tecnologia Motherboard (https://motherboard.vice.com) a respeito da influência do aplicativo iMessage nos relacionamentos e busca por namoros ou encontros românticos. Ela mostrou que o uso de programas de mensagem desse tipo – a exemplo do Whatsapp, líder no Brasil com 120 milhões de usuários – transformou significativamente o modo como nos comportamos e interagimos com outras pessoas.

Confira a seguir a tradução de alguns trechos do texto escrito originalmente em inglês e que aborda, de forma bem pontuada, hábitos que muitos de nós incorporamos e solidificamos ao longo dos últimos anos:

“Namorar hoje em dia é uma porcaria. Há, por exemplo, os paqueras que somem sem explicação – o chamado ghosting, em inglês. Há também pessoas desconhecidas que lhe enviam mensagens grosseiras e degradantes, em uma espécie de tentativa de conquista por intimidação – termo conhecido como negging. E há que se lidar com pelo menos cinco diferentes aplicativos (ou apps) de relacionamento no dia-a-dia. É uma vida difícil.

Pavani Yalla, líder de design experimental nos Estados Unidos, afirma que os elementos de comunicação visual dos aplicativos de mensagem são viciantes. Ela destaca os balões de fala, as animações de tela e o toque digital, diretamente focados em usuários jovens. A possibilidade de responder a mensagens com corações e polegares pra cima nos remete ainda – diz Yalla– às redes sociais nas quais já passamos várias horas por dia.

Há também as reticências animadas (“…”) e recursos similares que indicam que alguém está digitando, e o opcional sinal de visualização, que confirma quando alguém leu a sua mensagem.

São esses elementos que frequentemente injetam, em uma simples conversa, incríveis doses de ansiedade, frustração e autodesconfiança. E isso acontece, em parte, porque a comunicação por mensagens abre um grande espaço para mal-entendidos.

‘Especialmente quando uma das partes quer algo além de amizade, você não tem muito mais informações para se pautar além do tempo que outra pessoa levou para te responder’, diz Jeremy Birnholtz, pesquisador da Universidade de Northwestern, nos EUA. ‘Você irá se apegar a qualquer coisa que lhe pareça um sinal.’

As pessoas podem ainda se esconder atrás de mensagens de uma forma que não poderiam fazer pessoalmente ou pelo telefone. Nós muitas vezes usamos este novo escudo em benefício próprio, diz Birnholtz, seja para fingir que estamos ocupados ou para controlar o ritmo e a intensidade de uma conversa. ‘Sempre que houver uma ferramenta de comunicação, as pessoas poderão explorá-la’, explicou ele.

Mensagens de texto podem acelerar a experiência de um relacionamento ruim ou revelar as más intenções de alguém. Mas elas também podem proporcionar uma conversa positiva, e possibilitam que as emoções se esfriem após uma briga.

‘Não tenho dúvidas de que relacionamentos pioram com as mensagens de texto – alguns conflitos não podem ser resolvidos por mensagens’, afirma Birnholtz. ‘Mas também tenho certeza de que outros relacionamentos se fortalecem através delas.’”

 

Image credits_Chris Kindred:Motherboard
Image credits_Chris Kindred/Motherboard

 

Os Desafios da Leitura Digital

Há alguns anos, o escritor Nicholas Carr relatou que passou a se sentir inquieto enquanto lia livros ou artigos mais longos. “A minha concentração se dispersa depois de duas ou três páginas. Eu perco o fio, começo a procurar algo pra fazer. Eu sinto como se estivesse sempre arrastando o meu cérebro de volta para o texto. A leitura profunda que antes vinha naturalmente agora tornou-se uma luta”.

Ele entende que os anos recentes de leitura online são os principais responsáveis por esse fenômeno, apesar de reconhecer que a leitura digital tem benefícios incomparáveis em relação a épocas anteriores. Em questão de minutos, por exemplo, ele é capaz de pesquisar um volume imenso de informações e encontrar conteúdos que antes só estariam disponíveis em bibliotecas e salas de leitura.

Carr não está sozinho. Há uma tendência na atualidade em desprender-se do foco. A leitura digital mudou o modo como absorvemos o que está escrito – não necessariamente lê-se de cima pra baixo e da esquerda para a direita; os olhos pulam de um trecho ao outro, há uma busca ativa por determinadas palavras-chave, negritos, sublinhados e afins. Não só isso, mas o entorno sempre cheio de links e fotos também desvia a atenção, de forma que o leitor chega a esquecer o que tinha começado a ler originalmente.

Do ponto de vista fisiológico, da própria evolução da espécie humana, esse ritmo de leitura inevitavelmente tem suas implicações. Enquanto alguns especialistas defendem que os novos hábitos digitais, por si só, não causam maiores danos ao sistema ocular, os profissionais da área são uníssonos em ressaltar o risco de cansaço extremo e dores de cabeça em razão do excesso de leitura em dispositivos eletrônicos.

Quando estamos em frente a computadores e celulares, “nós piscamos menos, e é o piscar que espalha o filme lacrimal e promove uma superfície ocular saudável”, nas palavras do oftalmologista Dr. Marcelo Caram. Há também, segundo ele, um excesso de exposição ao comprimento de onda de luz azul dos monitores que pode contribuir, ao longo do tempo, para degenerações na área da retina. Não bastasse, o constante estímulo visual a curta distância contribui para o surgimento da miopia.

Preço alto

São justamente esses alguns dos motivos que fazem a pedagoga e professora de educação infantil Dani Vecchietti, 28 anos, preferir lidar com agendas, revistas e livros de papel. As telas lhe cobram um preço alto, com “muita dor de cabeça e nos olhos”. Ela fala também do – romântico – apelo da mídia impressa, do gosto de passar as páginas. Quando lê revistas, pode escolher as matérias que lhe interessam e ir a elas sem ordem definida. Quando lê livros, as páginas que foram lidas acumulam-se de um lado, e a passagem física pelos capítulos torna a experiência mais produtiva. Há um senso de progresso.

Pedro (nome fictício), de outro lado, estudante de Ciência da Computação, 21 anos, não hesita em dizer que a leitura digital lhe atende infinitamente melhor do que a impressa. Ele lista a facilidade de acesso, a variedade de fontes de informação, a possiblidade de se ler comentários e opiniões de outras pessoas a respeito do mesmo conteúdo, o baixo preço e a capacidade de armazenamento em tablets e celulares.

A professora da área de linguística da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) Rejane Dania defende que não é a plataforma em uso que define como se dará a assimilação do conhecimento, mas a experiência prévia e características pessoais de quem a está utilizando. Há que se respeitar o modo como cada um se adapta aos meios de leitura disponíveis.

A relação de cada indivíduo com materiais literários e informativos, de um modo geral, gira em torno das suas vivências em casa e na escola, entre amigos, familiares e colegas. As mídias impressa e digital podem até mesmo se misturar e se complementar, e a possiblidade de aprendizagem, daí, ruma ao infinito.

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Vocês Veem a Tecnologia Como Uma Ferramenta. Nós não.

Marc Prensky é um pensador, palestrante, escritor e consultor norte-americano, internacionalmente reconhecido como líder na área da educação. Ao longo de anos de trabalho, vem coletando alguns pensamentos de estudantes que ele batizou como ‘nativos digitais’ – termo hoje amplamente usado para descrever aquelas pessoas que “nasceram ou cresceram durante a era da tecnologia digital, e têm familiaridade com computadores e internet desde os primeiros anos de vida”.

Uma das frases a que ele dá destaque é justamente a que embasa o título deste artigo. Mais precisamente, disse um aluno: “Vocês veem a tecnologia como uma ferramenta. Nós a vemos como uma fundação – ela está na base de tudo o que a gente faz.”

Então, nota-se, há uma discrepância na própria definição daquilo que internet e tecnologia representam no mundo de hoje. Isso inevitavelmente cria uma lacuna na comunicação entre as gerações que atualmente vivem no nosso planeta: pais e filhos, professores e estudantes, chefes e jovens empregados.

E quando lançamo-nos o desafio de fazer uma passagem pro futuro de forma mais eficiente e proveitosa, tentando estreitar o nível de interação entre pessoas vindas de épocas diferentes, há muito mais perguntas do que respostas.

A primeira das questões a ser levada em conta, na prática, é a contextualização socioeconômica de uma determinada comunidade ou grupo de pessoas. Em outras palavras, nem todo mundo está exposto aos mesmos patamares de cultura e tecnologia, e o modo como diferentes dinâmicas sociais são tratadas deve necessariamente ser – bem, digamos – diferente.

O nativo digital norte-americano não é o mesmo daquele nascido na Índia. O do Norte do Brasil difere daquele vindo de Santa Catarina. Mesmo dentro de uma única cidade, inclusive porque a era digital é ainda tão recente, as competências tecnológicas de alguns adultos podem ser infinitamente maiores do que as de um adolescente.

Na linha do pensamento de Henry Jenkins, professor e pesquisador na área da Comunicação, “nós, como professores, devemos incluir o mundo exterior com o qual as crianças estão familiarizadas e usá-lo dentro das salas de aula”.

Troquemos as ‘salas de aula’ por ‘ambientes de trabalho’ e ‘círculos familiares’, e teremos aí um bom cenário na busca por um mundo mais integrado.

Que venham as discussões!

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