Lições de Liberdade

Se você algum dia for à China, a passeio ou a trabalho, avise aos amigos e à família: seu Facebook, Twitter e, com alguma chance, também seu e-mail estarão fora de órbita.

Trata-se da política de monitoramento do governo chinês sobre o acesso e uso da internet no país. Há em vigor uma extensa lista de sites oficialmente banidos, que inclui Google (e suas ramificações, como o Maps, Docs e Gmail) e o jornal norte-americano The Wall Street Journal.

O The New York Times, por exemplo, vem há pelo menos duas décadas tentando penetrar no mercado chinês. Atualmente, grande parte de seu conteúdo encontra-se bloqueada e está além do alcance de leitores em potencial.

Palavras-chave foram catalogadas de modo a facilitar a atuação do departamento de controle e censura. Vão de ‘protesto’ e ‘comunismo’ a ‘democracia’, ‘despotismo’ e ‘ditadura’. Jornais de oposição são pressionados a adaptar ou encerrar suas atividades, e ativistas dissidentes têm sido processados e presos.

O pano de fundo de projetos conhecidos como Escudo Dourado e Grande Firewall da China segue um dos provérbios favoritos do líder politico Deng Xiaoping: “Se você abre uma janela por várias horas, deve pressupor que em algum momento insetos irão entrar por ela”.

Assim, o governo chinês espera que, ao limitar a entrada de informações no país, o mal que poderia voltar-se contra si próprio também estaria eliminado.

É aí que entra a possiblidade de aprendermos com a experiência alheia. Nós, brasileiros, que cada vez mais fazemos uso da internet e das mídias sociais. Nós que dividimos nossas vidas e opiniões com centenas (milhares?) de amigos, colegas, tios e primos, mas também com outros tantos desconhecidos. Nós que somos parte desse fervor crescente, que temos essa vontade de alimentar discussões acirradas sobre política, direitos sociais e outros temas de difícil consenso.

O que se vê nos círculos sociais, e por vezes nos noticiários, é que a exposição das nossas diferenças de opinião tem nos dividido de modo irreconciliável.

Se, por um lado, temos amplo acesso à informação, por outro, falta-nos apreço e bom uso das diversas fontes de notícia e conhecimento que nos chegam. Desfrutamos de irrestrita liberdade de expressão, mas frequentemente a levamos a um extremo desrespeitoso. Nosso julgamento moral é implacável.

Nós, brasileiros, temos privilégios de cidadãos livres, mas os dissipamos, o que contamina a nossa capacidade de melhorar como povo. É simples e complicado assim.

2000 and late

Are we being spied on? Monitored 24/7? Does it bother you?

When you read and talk about internet and surveillance, you end up making a choice between believing in a conspiracy theory or not.

Please allow yourself to change sides from time to time. I certainly do. The internet era is too young and the questions far outweigh the answers we may have.

One thing is for sure. We, you and I, spy on each other ourselves. Before any government, institution or potential employer, we are the ones creating a world where nothing can be kept in privacy. Nothing can be fully forgiven, nothing will be fully forgotten.

And if we are aware of the fact that we are being constantly watched, how much of an impact does this have on our behaviour?

Uma Lista Sobre o Hábito de Listas

“Saiba quais as dez melhores cidades do mundo pra se viver” ou “sete esportes que fazem do Brasil um país de sucesso” são exemplos de títulos de artigos que certamente nos soam familiares. Não se sabe exatamente como e quando teve início o atual fenômeno dos textos em forma de listas, mas o fato é que nos deparamos com eles a todo instante.

Os chamados listicles (junção em inglês das palavras list e articles – lista e artigos) já existiam no mundo jornalístico há décadas mas parecem ter adquirido força dentro das redes sociais por volta de 2009, principalmente através do Facebook e de uma famosa postagem de autor desconhecido: “25 fatos aleatórios sobre a minha pessoa”, em que as pessoas falavam delas mesmas e indicavam 25 amigos que deveriam repetir a declamação a respeito de si próprios.

Seguem abaixo os principais fatos sobre os listicles e a sua firme presença no nosso cotidiano:

  1. Os subtítulos chamam a atenção em meio a tanta informação disponível na internet. Os olhos passam pelas partes destacadas, em negrito, em letras maiúsculas, e param somente naquelas que mais lhes interessam.
  1. É muito mais fácil lembrar-se de um texto enumerado e fragmentado. Sob um ponto de vista visual, a memória tem mais facilidade de voltar ao local em que estavam as palavras, mais do que o significado delas em si.
  1. Estamos todos com pressa, precisamos ser práticos. E o consumo de material informativo acompanha essa tendência.
  1. Há uma – importante – democratização da informação. Qualquer tema, de qualquer natureza e complexidade, pode ser abordado através de um listicle. Dos cinco melhores cremes para o rosto, às nove decisões judiciais que podem mudar o país, a “itemização” de textos cobre assuntos de toda ordem e são acessíveis a públicos de todos os tipos.
  1. A interpretação do texto fica mais simples. As listas em artigos trazem uma sequência ordenada de pensamentos e conclusões, tirando do leitor a necessidade de fazê-lo e de caminhar sozinho rumo ao próximo capítulo.
  1. Sensação de dever cumprido. Ainda que estacionemos nos subtítulos e não nos aprofundemos nos temas tratados em cada parágrafo dos listicles, ao terminarmos de ler todos os trechos destacados a sensação é de missão cumprida, de texto lido – tudo pronto para o próximo artigo que aponta logo abaixo.
  1. Categorização e classificação do assunto. Os listicles enquadram o tema principal do texto em determinadas categorias e digerem a sua problemática, o conteúdo se apresenta de maneira mais clara. Para Maria Konnikova, autora do livro “Mastermind: Como pensar como Sherlock Holmes”, a história é finita e a sua extensão é definida de antemão.

Peço licença ao Esperanto para adaptar o verbo do “fazer listas” aos nossos tempos. Listicles podem ser listigos em português bem claro. Os listigos nossos de cada dia.

Como as Mensagens de Texto Mudaram a Forma Como Nos Relacionamos

Em junho último, a jornalista de multimídia Ankita Rao escreveu para o portal de ciência e tecnologia Motherboard (https://motherboard.vice.com) a respeito da influência do aplicativo iMessage nos relacionamentos e busca por namoros ou encontros românticos. Ela mostrou que o uso de programas de mensagem desse tipo – a exemplo do Whatsapp, líder no Brasil com 120 milhões de usuários – transformou significativamente o modo como nos comportamos e interagimos com outras pessoas.

Confira a seguir a tradução de alguns trechos do texto escrito originalmente em inglês e que aborda, de forma bem pontuada, hábitos que muitos de nós incorporamos e solidificamos ao longo dos últimos anos:

“Namorar hoje em dia é uma porcaria. Há, por exemplo, os paqueras que somem sem explicação – o chamado ghosting, em inglês. Há também pessoas desconhecidas que lhe enviam mensagens grosseiras e degradantes, em uma espécie de tentativa de conquista por intimidação – termo conhecido como negging. E há que se lidar com pelo menos cinco diferentes aplicativos (ou apps) de relacionamento no dia-a-dia. É uma vida difícil.

Pavani Yalla, líder de design experimental nos Estados Unidos, afirma que os elementos de comunicação visual dos aplicativos de mensagem são viciantes. Ela destaca os balões de fala, as animações de tela e o toque digital, diretamente focados em usuários jovens. A possibilidade de responder a mensagens com corações e polegares pra cima nos remete ainda – diz Yalla– às redes sociais nas quais já passamos várias horas por dia.

Há também as reticências animadas (“…”) e recursos similares que indicam que alguém está digitando, e o opcional sinal de visualização, que confirma quando alguém leu a sua mensagem.

São esses elementos que frequentemente injetam, em uma simples conversa, incríveis doses de ansiedade, frustração e autodesconfiança. E isso acontece, em parte, porque a comunicação por mensagens abre um grande espaço para mal-entendidos.

‘Especialmente quando uma das partes quer algo além de amizade, você não tem muito mais informações para se pautar além do tempo que outra pessoa levou para te responder’, diz Jeremy Birnholtz, pesquisador da Universidade de Northwestern, nos EUA. ‘Você irá se apegar a qualquer coisa que lhe pareça um sinal.’

As pessoas podem ainda se esconder atrás de mensagens de uma forma que não poderiam fazer pessoalmente ou pelo telefone. Nós muitas vezes usamos este novo escudo em benefício próprio, diz Birnholtz, seja para fingir que estamos ocupados ou para controlar o ritmo e a intensidade de uma conversa. ‘Sempre que houver uma ferramenta de comunicação, as pessoas poderão explorá-la’, explicou ele.

Mensagens de texto podem acelerar a experiência de um relacionamento ruim ou revelar as más intenções de alguém. Mas elas também podem proporcionar uma conversa positiva, e possibilitam que as emoções se esfriem após uma briga.

‘Não tenho dúvidas de que relacionamentos pioram com as mensagens de texto – alguns conflitos não podem ser resolvidos por mensagens’, afirma Birnholtz. ‘Mas também tenho certeza de que outros relacionamentos se fortalecem através delas.’”

 

Image credits_Chris Kindred:Motherboard
Image credits_Chris Kindred/Motherboard

 

Os Desafios da Leitura Digital

[Nota da Autora: seu primeiro e-book agora encontra-se disponível pela Amazon.com.br (acessível também para quem não possui Kindle) – contém pouco mais de 30 páginas e trata, em uma linguagem mais fácil e menos acadêmica, da relação entre Internet, século XXI, comportamento e trabalho.

R$ 9,99 através do link https://www.amazon.com.br/Panoptismo-Um-Olho-Mil-Mentes-ebook/dp/B084VC6WR7/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=ÅMÅŽÕÑ&crid=VXLFAOMU5QS2&keywords=panoptismo&qid=1583930178&sprefix=panop%2Caps%2C220&sr=8-1]

Os Desafios da Leitura Digital

Há alguns anos, o escritor Nicholas Carr relatou que passou a se sentir inquieto enquanto lia livros ou artigos mais longos. “A minha concentração se dispersa depois de duas ou três páginas. Eu perco o fio, começo a procurar algo pra fazer. Eu sinto como se estivesse sempre arrastando o meu cérebro de volta para o texto. A leitura profunda que antes vinha naturalmente agora tornou-se uma luta”.

Ele entende que os anos recentes de leitura online são os principais responsáveis por esse fenômeno, apesar de reconhecer que a leitura digital tem benefícios incomparáveis em relação a épocas anteriores. Em questão de minutos, por exemplo, ele é capaz de pesquisar um volume imenso de informações e encontrar conteúdos que antes só estariam disponíveis em bibliotecas e salas de leitura.

Carr não está sozinho. Há uma tendência na atualidade em desprender-se do foco. A leitura digital mudou o modo como absorvemos o que está escrito – não necessariamente lê-se de cima pra baixo e da esquerda para a direita; os olhos pulam de um trecho ao outro, há uma busca ativa por determinadas palavras-chave, negritos, sublinhados e afins. Não só isso, mas o entorno sempre cheio de links e fotos também desvia a atenção, de forma que o leitor chega a esquecer o que tinha começado a ler originalmente.

Do ponto de vista fisiológico, da própria evolução da espécie humana, esse ritmo de leitura inevitavelmente tem suas implicações. Enquanto alguns especialistas defendem que os novos hábitos digitais, por si só, não causam maiores danos ao sistema ocular, os profissionais da área são uníssonos em ressaltar o risco de cansaço extremo e dores de cabeça em razão do excesso de leitura em dispositivos eletrônicos.

Quando estamos em frente a computadores e celulares, “nós piscamos menos, e é o piscar que espalha o filme lacrimal e promove uma superfície ocular saudável”, nas palavras do oftalmologista Dr. Marcelo Caram. Há também, segundo ele, um excesso de exposição ao comprimento de onda de luz azul dos monitores que pode contribuir, ao longo do tempo, para degenerações na área da retina. Não bastasse, o constante estímulo visual a curta distância contribui para o surgimento da miopia.

Preço alto

São justamente esses alguns dos motivos que fazem a pedagoga e professora de educação infantil Dani Vecchietti, 28 anos, preferir lidar com agendas, revistas e livros de papel. As telas lhe cobram um preço alto, com “muita dor de cabeça e nos olhos”. Ela fala também do – romântico – apelo da mídia impressa, do gosto de passar as páginas. Quando lê revistas, pode escolher as matérias que lhe interessam e ir a elas sem ordem definida. Quando lê livros, as páginas que foram lidas acumulam-se de um lado, e a passagem física pelos capítulos torna a experiência mais produtiva. Há um senso de progresso.

Pedro (nome fictício), de outro lado, estudante de Ciência da Computação, 21 anos, não hesita em dizer que a leitura digital lhe atende infinitamente melhor do que a impressa. Ele lista a facilidade de acesso, a variedade de fontes de informação, a possiblidade de se ler comentários e opiniões de outras pessoas a respeito do mesmo conteúdo, o baixo preço e a capacidade de armazenamento em tablets e celulares.

A professora da área de linguística da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) Rejane Dania defende que não é a plataforma em uso que define como se dará a assimilação do conhecimento, mas a experiência prévia e características pessoais de quem a está utilizando. Há que se respeitar o modo como cada um se adapta aos meios de leitura disponíveis.

A relação de cada indivíduo com materiais literários e informativos, de um modo geral, gira em torno das suas vivências em casa e na escola, entre amigos, familiares e colegas. As mídias impressa e digital podem até mesmo se misturar e se complementar, e a possiblidade de aprendizagem, daí, ruma ao infinito.

Vocês Veem a Tecnologia Como Uma Ferramenta. Nós não.

Marc Prensky é um pensador, palestrante, escritor e consultor norte-americano, internacionalmente reconhecido como líder na área da educação. Ao longo de anos de trabalho, vem coletando alguns pensamentos de estudantes que ele batizou como ‘nativos digitais’ – termo hoje amplamente usado para descrever aquelas pessoas que “nasceram ou cresceram durante a era da tecnologia digital, e têm familiaridade com computadores e internet desde os primeiros anos de vida”.

Uma das frases a que ele dá destaque é justamente a que embasa o título deste artigo. Mais precisamente, disse um aluno: “Vocês veem a tecnologia como uma ferramenta. Nós a vemos como uma fundação – ela está na base de tudo o que a gente faz.”

Então, nota-se, há uma discrepância na própria definição daquilo que internet e tecnologia representam no mundo de hoje. Isso inevitavelmente cria uma lacuna na comunicação entre as gerações que atualmente vivem no nosso planeta: pais e filhos, professores e estudantes, chefes e jovens empregados.

E quando lançamo-nos o desafio de fazer uma passagem pro futuro de forma mais eficiente e proveitosa, tentando estreitar o nível de interação entre pessoas vindas de épocas diferentes, há muito mais perguntas do que respostas.

A primeira das questões a ser levada em conta, na prática, é a contextualização socioeconômica de uma determinada comunidade ou grupo de pessoas. Em outras palavras, nem todo mundo está exposto aos mesmos patamares de cultura e tecnologia, e o modo como diferentes dinâmicas sociais são tratadas deve necessariamente ser – bem, digamos – diferente.

O nativo digital norte-americano não é o mesmo daquele nascido na Índia. O do Norte do Brasil difere daquele vindo de Santa Catarina. Mesmo dentro de uma única cidade, inclusive porque a era digital é ainda tão recente, as competências tecnológicas de alguns adultos podem ser infinitamente maiores do que as de um adolescente.

Na linha do pensamento de Henry Jenkins, professor e pesquisador na área da Comunicação, “nós, como professores, devemos incluir o mundo exterior com o qual as crianças estão familiarizadas e usá-lo dentro das salas de aula”.

Troquemos as ‘salas de aula’ por ‘ambientes de trabalho’ e ‘círculos familiares’, e teremos aí um bom cenário na busca por um mundo mais integrado.

Que venham as discussões!

Quem São os Meus Heróis?

Tina é uma menina de vinte e poucos anos, encantada com o mundo e com as pessoas, que costuma se aproximar de quem ela acha mais cool do que ela própria – gente que se veste sem muita produção, que conversa sobre cinema alternativo e é engajada em assuntos da política nacional. Há na Tina um ímpeto de observar, imitar e aprender, e talvez por isso mesmo seja tão afeita a novas amizades e conversas.

Sempre que ela volta pra casa, onde mora com os avós, mãe e três irmãos mais novos, se arremessa no sofá com um lanche rápido nas mãos e joga conversa fora com quem quer que passe pela sala. Três casos e algumas risadas depois, Tina já está pronta pra subir pro quarto e se distrair com o celular por algumas horas.

Dia desses no entanto, ao chegar no andar de cima e atirar a bolsa na cama, se deu conta de que o telefone celular havia ficado na mochila de uma amiga. Pensou em ir à casa da Andreia, claro, mas não valia a pena dirigir por 1 hora e meia àquela altura da noite, já que elas iriam se encontrar logo cedo na manhã seguinte.

Bateu nela uma sensação enorme de não saber o que fazer. O computador da casa é pra uso da família toda, privacidade praticamente nenhuma. O livro que ela vinha lendo estava no celular. As mensagens trocadas com todos os amigos, as conversas ainda pendentes, estavam no celular. Os links abertos em blogs que ela queria ler melhor mais tarde: no celular. As fotos e vídeos que ela iria editar naquela semana. Celular.

Daí Tina se lembrou de uma história que o avô contava, de como os pais dele não deixavam que ele fosse se dar com os meninos e meninas do Stanislau, o bairro ao lado. Aliás, era no Stanislau que morava a avó da Tina, e foi lá mesmo naquela área que os dois se conheceram e começaram a namorar, há mais de 4 décadas. Mas tudo aconteceu às escondidas, não havia meios de convencer os pais daquela época a deixar os filhos se misturarem com os de outras áreas ao redor.

A molecada só queria estar junto. Conversar e passar tempo juntos. Muitas vezes sem fazer nada especial, mas juntos.

E não é essa espontânea singeleza que agora a Tina considera heroica?

– – –

Na era da tecnologia, as nossas habilidades são inúmeras. Nós desenvolvemos o poder de interagir, produzir e apreender informações em alta velocidade, tudo ao mesmo tempo e agora.

Enquanto isso, no contraponto, a gente perdeu a calma do que é simples. O que é simples ficou bobo, o que é pouco complexo não é bom o suficiente.

Quais são as prioridades que nos movem, afinal de contas?

Meus 3 Aplicativos Favoritos

A rotina do Eduardo e da galera do bairro é mais ou menos a mesma durante toda a semana. Eles vão à escola de manhã, voltam pra casa pro almoço e se encontram na porta do Tulipo pra uns cigarros enquanto jogam conversa fora. Vez por outra o próprio Tulipo sai de casa com o violão e fica ali tocando ao fundo, sentado na calçada.

Eles têm entre 16 e 19 anos e teoricamente tinham que estar se preparando pro vestibular. Mas muitas vezes a preguiça é mais forte.

Todo mundo do grupo tem celular (uns melhores, outros mais antigos) e a onda entre eles tem sido o Tinder. Mostram fotos das meninas uns pros outros, combinam a programação do fim de semana com algumas delas por Whatsapp e assim vão passando os dias.

Em uma dessas tardes, quando o Eduardo estava voltando pra casa, ele deu de cara com aquela que viria a ser o grande amor da sua vida. Uma menina alta, alternativa, um pouco mais velha que ele e com o cabelo estranhamente colorido – metade verde, metade laranja. Ela estava parada na rua, checando mensagens no celular. Usava uma camiseta larga, colorida e com palavras em francês que o Eduardo não entendia. Logo ele se acovardou, achou que ela era areia demais.

Mas a menina resolveu puxar papo. Perguntou ao Eduardo se o ônibus passava por ali, riram juntos do cachorro que parecia com a dona do outro lado da rua, acabaram estendendo o assunto pra coisas de Facebook e trocaram telefone.

Verdade seja dita, ela nem usa Facebook tanto assim. Prefere acompanhar exposições de arte pelo Artlyst e dar uma lida nas últimas obras que baixou pelo iBooks. Mas, ela dizia, Facebook é um mal necessário e facilita a conexão com amigos e família que moram longe.

Dali eles combinaram de se encontrar na quinta-feira seguinte, em um show de rock no centro da cidade. Divertiram-se como nunca, e, apesar de todas as diferenças, não conseguiram parar de se ver. Nunca mais se desgrudaram.

Essa é uma história de amor de 2015. Mas podia ser de 1986. Com exceção dos Aplicativos.

[FIM]

– – –

Nós todos temos os nossos Aplicativos favoritos. Não importa a sua idade, o tempo que você gasta na internet, não importa nem se você gosta dos Aplicativos que usa ou não.

Eles fazem parte da nossa rotina e facilitam (enormemente!) tarefas que antes a gente fazia de uma forma bem mais espaçosa. Tá aí, é essa a questão, do espaço que não se usa mais. Mapas, jogos, livros de receita, selos postais, LPs e fitas cassete, câmera fotográfica, jornais, televisão, dinheiro! Tudo disponível nos nossos minúsculos telefones celulares.

Quais Apps são essenciais pra você?

Who Are My Heroes?

Tina is a girl in her early twenties, fascinated with the world and with people, who tends to approach whoever she thinks is cooler than herself – people who dress simple, talk about alternative movies, and engage in conversations about national politics. She has this urge to observe, imitate and learn, and perhaps for this very reason she is so prone to new friendships and conversations.

Whenever she returns home, where she lives with her grandparents, mother and three younger siblings, she throws herself onto the couch with a quick snack in her hands and plays chit chatter with anyone in the house who passes by. Three stories and a few laughs later, Tina is ready to go upstairs and spend some time on her cell phone for a few hours.

One of these days, after going upstairs and throwing her bag on the bed, Tina realized that she’d left her cell phone in a friend’s backpack. She obviously thought of going to Andrea’s house to pick it up, but it was not worth it driving for an hour and a half once they would meet early in the following morning.

There was a huge sense in her of not knowing what to do. The house computer is for the use of the whole family which equals to no privacy whatsoever. The book she was reading was on her cell phone. The messages she exchanged with all her friends throughout the day, conversations still pending, were on the cell phone. The links left open on blogs she wanted to read later: on the cell phone. The photos and videos she was going to edit that week. Cell phone.

Then Tina remembered of a story her grandfather used to tell them about how his parents would not let him go hang around with the crowd at Stanislau, the district next to theirs. By the way, it was in Stanislau where Tina’s grandmother used to live, and it was in that area that the two of them met and started dating, more than 4 decades ago. But everything happened in secret; at that time there was no way to convince parents to let their children hook up with the ones from that and other surrounding areas.

Those kids just wanted to be together, to talk to each other and spend time together. Often doing nothing special, but together.

And isn’t this spontaneous simplicity that Tina now considers heroic?

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In the Digital Age, our skills are uncountable. We’ve developed the ability to interact, produce and retain information at high speed, everything at the same time and right now.

On the other hand, meanwhile, we lost the calmness of what is simple. Simple things are seen as not interesting; if it’s not jaw-dropping, it’s not good enough.

What are the priorities that move us, after all?

My 3 Essential Apps

Ed and his friends from the neighbourhood have roughly the same daily routine throughout the whole week. They go to school in the morning, come home for lunch and meet at Tulipo’s door for some cigarettes and petty talk. Sometimes Tulipo himself leaves his house with his guitar and plays some classics in the background, sitting on the sidewalk. Their age varies from 16 and 19 and, in theory, they should be preparing for their college exams. But very often laziness gets in the way.

Everyone in the group has cell phones (some better, some worse) and the hit amongst them has been Tinder. They show each other photos of the girls they find, arrange dates with some of them via Whatsapp and so on. That’s basically how their days go by.

In one of these afternoons, when Ed was coming home, he came across the woman who would eventually become the love of his life. A tall, alternative girl, a little older than him and with strangely coloured hair – half green, half orange. She was standing in the street, checking messages on her cell phone. She was wearing a large, colourful t-shirt with words in French that Ed could not understand. Soon he trembled, thinking she was way out of his league.

However, the girl herself made a move and asked Ed if the bus stop was anywhere around. Not long after they were laughing together at the dog that looked like its lady owner across the street, then talked about what was going on on Facebook that week and ended up exchanging phone numbers.

Truth be told, she does not even use Facebook that much. She prefers to follow art exhibitions through Artlyst and to read some of her recent downloads on iBooks. But, she said, Facebook is a necessary evil and facilitates her communication with friends and family who live far away.

From there, they arranged to meet the following Thursday at a rock concert in town. They had fun like they never did before, and, despite all the differences, could not stop seeing each other. They never went apart again.

This is a love story from 2015. But it could be from 1986. Except for all the Apps.

[THE END]

– – –

We all have our favourite Apps. No matter what age you are, or how much internet you use in a day, it does not even matter whether you like the Apps you use.

They are part of our daily life and simplify (greatly!) tasks that we used to do in a much more spacious way. There it is, it is a matter of space. Maps, games, recipe books, postage stamps, LPs and cassette tapes, cameras, newspapers, TVs, money! All of them available in our tiny cell phones.

Which Apps are essential to you?